
Entenda quando a medida socioeducativa deve ser reavaliada, o papel do PIA e do relatório técnico e como funciona o pedido antes dos seis meses.
Depois do início de uma medida socioeducativa, acompanhar o calendário é apenas parte do trabalho. A reavaliação também exige conhecer o atendimento oferecido, a participação do adolescente e os encaminhamentos preparados para a continuidade de sua vida escolar, familiar e comunitária.
Essa análise segue o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, e a Lei do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, conhecida como Lei do Sinase. A responsabilização por ato infracional possui regras próprias, diferentes das penas e da execução penal aplicáveis aos adultos.
O artigo 42 da Lei do Sinase determina que liberdade assistida, semiliberdade e internação sejam reavaliadas em intervalos de, no máximo, seis meses. Na internação, o artigo 121, § 2º, do ECA também exige decisão fundamentada sobre a manutenção da medida.
Esse é um limite para o intervalo entre as revisões. Na internação, não representa um período mínimo obrigatório antes de discutir a substituição da medida. A possibilidade de pedir nova análise antes desse prazo está prevista na própria legislação.
A passagem dos seis meses também não funciona como uma ordem de desinternação: a revisão precisa resultar em decisão sobre a situação do adolescente. Se o prazo foi ultrapassado, a defesa deve identificar a última reavaliação e levar a omissão ao juízo, para controle da legalidade da manutenção.
O Plano Individual de Atendimento, ou PIA, organiza as atividades previstas para o adolescente. Sua elaboração cabe à equipe técnica, com participação efetiva dele e de sua família, representada pelos pais ou responsável.
Na reavaliação, o artigo 58 da Lei do Sinase exige relatório técnico sobre a evolução no cumprimento desse plano. Por isso, interessa verificar quais objetivos foram definidos e como as atividades ocorreram.
Registros escolares, participação em cursos, atendimentos e vínculos familiares podem ajudar a compreender essa trajetória. Uma conclusão favorável ou desfavorável precisa ser lida junto das informações que a sustentam.
Nas audiências concentradas, a Recomendação CNJ 98/2021 orienta ouvir o adolescente sobre sua participação no PIA e a realização das atividades previstas. Essa escuta ajuda a conferir as condições reais do atendimento.
Também é relevante esclarecer dificuldades de acesso às atividades. Se uma ação estava prevista, mas não foi oferecida pelo programa, esse dado deve aparecer na análise. A defesa pode apontar a diferença entre uma dificuldade atribuída ao adolescente e uma limitação do atendimento disponibilizado.
O parecer técnico é importante, mas a decisão pertence ao juiz. No AgRg no RCD no HC 1.079.049/BA, publicado em 2 de julho de 2026, a Quinta Turma do STJ reafirmou que um relatório favorável não obriga a substituição da internação. A manutenção pode apoiar-se em outros elementos concretos dos autos.
Isso exige atenção aos fundamentos da decisão. A Lei do Sinase, no artigo 42, § 2º, impede que apenas a gravidade do ato, os antecedentes ou o tempo de duração da medida sejam usados para recusar a substituição por outra menos grave.
A leitura conjunta dessas regras permite distinguir duas situações: a discordância judicial fundamentada sobre a avaliação técnica e uma recusa que apenas repete considerações genéricas. A defesa deve confrontar os motivos apresentados com os registros atuais do atendimento, indicando precisamente o ponto questionado.
O artigo 43 admite pedido de reavaliação a qualquer tempo. O desempenho adequado no PIA, antes da revisão obrigatória, está entre os motivos expressamente previstos. O pedido, contudo, precisa de justificativa; a lei permite seu indeferimento imediato quando a motivação for insuficiente.
Para preparar a análise, é útil reunir o PIA, os relatórios técnicos, a última decisão e os registros posteriores relevantes. O pedido deve explicar o que mudou e qual providência se pretende, como a substituição da internação por medida menos restritiva, conforme o caso.
A família pode colaborar com informações sobre escola, responsáveis e rede de atendimento disponível. Esses elementos ajudam a apresentar uma proposta concreta de acompanhamento, respeitando a intimidade do adolescente.
A decisão judicial sobre a execução deve ser precedida das manifestações da defesa e do Ministério Público. Questionamentos sobre omissões, documentos ou fundamentos podem ser apresentados pelos meios processuais adequados.
A reavaliação deve acompanhar a trajetória atual do adolescente e a necessidade da medida. Conferir o prazo, a evolução do PIA e os fundamentos da decisão permite discutir a continuidade do atendimento com base em informações verificáveis, preservando as garantias do procedimento socioeducativo.
Nabil Fernandes Hoblos — Nabil Hoblos
Advogado criminalista em Divinópolis/MG · OAB/MG 221.144 · https://nh.adv.br/
Fontes oficiais — conferidas em 04/11/2026